3 de junho de 2010



"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar  novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."
("A beira do mar aberto" Caio Fernando Abreu). 

2 de junho de 2010

Minha mãe não me ama por que eu gosto de heavy metal.



Eu nunca quis esfregar minha vida em você.
Foi assim, rápido. De um dia pro outro eu cresci e quis que você crescesse comigo, isso foi fatal. Você não tem o poder de acompanhar o meu passo, vou te deixar para trás, por que eu PRECISO correr.
Tem uma barreira entre nós que eu não consigo deter ou/e compreender, então ficamos assim como estranhas e desentendidas de qualquer coisa que eu cite, faça ou pense... Por que S-O-M-O-S D-I-F-E-R-E-N-T-E-S.
Tem certos dias em sua vida que você acorda e me detesta e tem outros que você me admira, eu já estou totalmente acostumada com qualquer decisão sua. Pois te conheço.
Cada dia estamos mais distantes e eu não faço nada para mudar, afinal tenho coisas literalmente mais importantes para fazer como estudar átomos e prótons enquanto você finge para mim e para si mesma que queria conversar, “se abrir” ou qualquer uma dessas outras coisas que não fazemos deis de quando eu me recorde – exista por gente/ser humano/normal/anormal.
Sabe o que eu reparei hoje?
Eu sou eu
Você é você
Nós...
Bem, isso não existe. 

1 de junho de 2010





"Eu estou vivendo uma coisa muito boa. Aquela coisa que a gente suspeita que nunca vai acontecer. Aconteceu."

Sweet Dreams


Doces sonhos são feitos disso
Quem sou eu pra desacreditar?
Viajando o mundo e os sete mares
Todos estão procurando por algo.

Alguns deles querem te usar
Alguns deles querem ser usados por você
Alguns deles querem abusar de você
Alguns deles querem ser abusados por você

Mexa-se, mexa-se, mexa-se,
Mexa-se!

Eu vou usar você e abusar de você
Eu tenho que saber o que há dentro de você
Eu vou usar você e abusar de você
Eu tenho que saber o que há dentro de você.

28 de maio de 2010

Alívio Imediato



O melhor esconderijo, a maior escuridão
Já não servem de abrigo, já não dão proteção
A Líbia é bombardeada, a libído e o ví­rus
O poder, o pudor, os lábios e o batom.

Que a chuva caia
Como uma luva
Um dilúvio
Um delírio
Que a chuva traga
Alívio imediato.

Que à noite caia
De repente caia
Tão demente
Quanto um raio
Que a noite traga
Alívio imediato.

Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossí­veis
E quebra o silêncio e parte o coração.

Há um muro de concreto entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
Duas Alemanhas, duas Coreias
Tudo se divide, todos se separam.


Que a chuva caia
Como uma luva
Um dilúvio
Um delírio
Que a chuva traga
Alívio imediato.

Que à noite caia
De repente caia
Tão demente
Quanto um raio
Que a noite traga
Alívio imediato...

26 de maio de 2010

José



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

[Carlos Drummond de Andrade]

23 de maio de 2010


Eu tenho tanto medo
Não sei o que dizer
Irei lutar contra o destino
Se ele me fizer te perder.

Essa vida é tão cruél
Querem acabar com meu amor
Usando mil artifícios em pensar
Que sem você, eu vivo na dor.

Meu peito bate acelerado
Só de pensar em lhe ver
Te abraçar, te ver sorrindo
Te amar e te pertencer.

Esse amor é tão belo
Se pudesse, faria uma canção
Deixando bem claro o que eu sinto
Espalharia pelos quatro ventos
Que nunca vou tirar você de meu coração.

22 de maio de 2010

Paranóia-Irritante




O texto que vem a seguir é irritante, inútil e fala sobre minha demência moral que durou cerca de... de... não sei quanto tempo.
Esse texto é sobre ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera conhecidencia.
Está frio. Isso eu sinto pois meu braço tem o que é semelhante a umas bolinhas, acho que são meus poros abrindo por conta do arrepio que o frio me causa. Eu tenho um medo agora e é um medo de alguma coisa que vai acontecer e que eu não vou poder mudar, que eu sinto – como o arrepio causado pelo frio – mas eu não sei realmente se vai acontecer, se soubesse esse medo unitário se transformaria em um medo + certeza do fato, isto é, eu não tenho um medo + certeza do fato, eu tenho um medo + paranoia irritante.
Eu digo que é uma paranoia irritante por que eu sei que irrita, aos outros. Eu sempre digo que não me importo com o pensar dos outros mas estou paranoica com o pensar deles, e paranoia-é-irritante, entende? Tá, eu sei que não entende, mas eu não quero que entenda, só não faça o olhar: ^o) Quando eu estou falando.
Estou ouvindo heavy metal, isso me relaxa, estou mais calma. Mais-calma. Mentira, não estou mais calma porranenhuma, mas se eu dizer que estou mais calma meu texto sem sentido terá um sentido, os meus pseudo-leitores acharam que eu escrevi para relaxar a minha pseudo-paranóia-irritante. Mas isso também é mentira.
Tenho um amigo que diz que quando eu estou deprimida fico direcionando os fatos para mim mesma e eu estou fazendo isso agora, mas não estou deprimida, estou paranoica e paranoia é irritante, entende?
Bateu um vento gelado agora, que veio da janela da cozinha, isso me causou outro arrepio. Quando me arrepio por conta do frio sinto uma sensação de tristeza que eu não consigo expor, mas se estivesse com ideias prontas não diria isso. Mas NÃO vou fechar a janela, isso seria fácil demais.
Sentimento: Acabaram de me dizer que quando estamos mal com tudo não conseguimos demonstrar sentimento, isso tem sentido? Sentido: Charles Manson dizia que ter sentido não faz sentido. Mas eu conheci essa frase não foi com ele me falando e sim com outra moça que me fez feliz por 24hs. Isso também é uma mentira, ela nunca me fez feliz, mas ela me enganou bem, talvez quando se é engano, se é feliz.
Está tarde e eu preciso dormir, mas não tenho sono, meu sono foi substituido pela minha paranóia-irritante. E outra, estou pensando em muitas coisas, isso tira meu sono. E outra, estou preocupada com uma coisa que eu não sei bem definir e isso também tira meu sono.
PARA-DE-TER-ESSA-PARANÓIA-IRRITANTE!-PORRA!
Todo sábado é assim, sábado é o dia destrutivo da semana.
Ah, meu bem, não adianta se proteger do escuro, você sabia que ele voltaria, não sabia? Ele é mais forte que você, ele vem, ele te arranca pedaço por pedaço do seu corpinho-fútil. E você NÃO TEM como fugir. Ele te rasga, você se rasga, ele só tem o poder de arrancar os pedaços, por que a merda toda você faz sozinha. E não é preciso motivo ou razão, só uma desculpa, então ela vem, como SEMPRE veio. E depois, só resta o final do arrependimento.
PARA COM ESSA PARANÓIA!
PARANÓIA É IRRITANTE!
PORRA!
Esse texto não tem edição, edição é coisa de bicha, e eu não sou bicha, sou só paranoica e irritante, escrevo errado e estou POUCO ME FODENDO, ninguém vai ler isso mesmo.

Speak of the Devil



Negociei minha bíblia por um gatinho preto
É época do Armageddon aqui
Alguns me chamam de filho da manhã
Deus sabe que eu sou o anjo da luz

Eu bebo minha água da pegada de um lobo
Meu trabalho de cristo salvador da alma
Deus sabe que eu sou o anjo da luz

Fale com o demônio...
Fale com o demônio
Demonio!

Fiéis fiquem em guarda, sejam fortes e fiquem de pé
É época do Armageddon aqui
Alguns me chamam de filho da manhã

Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Fale com o demônio...
Demônio, demônio!

21 de maio de 2010

Uma história de fadas

Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor idéia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
Era comum, que nem a gente. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?